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Viçosa, sempre Viçosa e cheia de Graça (Parte 1) - Elmar Carvalho
Fonte: Elmar Carvalho | Publicado em: 30/04/2012  
 

Alguns meses atrás, disse para o amigo Vicente Miranda, notável historiador, autor de Três Séculos de Caminhada, que revela a saga de sua família, e consequentemente termina por conter importantes dados históricos do Ceará e do Piauí, porquanto fala de velhas estirpes de Viçosa do Ceará e de Piracuruca, que estava desejando adquirir um pequeno lote de terra em sua aprazível terra natal. Ele, então, me recomendou ter calma, e me ofereceu seu sítio para passar um final de semana, para que eu pudesse procurar um imóvel de melhor preço e de boa localização. Embora no momento eu tenha abortado essa ideia, pedi-lhe a chave do sítio, que ele me oferecera espontaneamente, e fui passar o sábado e o domingo na serrana e imperial Viçosa.

Fomos, além de mim, minha mulher, Fátima, meu pai, Miguel, minha mãe, Rosália, minha irmã Maria José e o seu filho Almeida Neto. Meus pais vieram de Campo Maior, em companhia do meu irmão Antônio José e de sua mulher Maria de Jesus. A minha irmã veio de Parnaíba, onde reside. Ainda desta cidade vieram o tenente Nonato Freitas (Natim), sua namorada Ana Paulo, o Beré, meu cunhado, e o meu amigo e compadre Canindé Correia. No meu carro foram também minha filha Elmara, sua amiga Williane e meu amigo Zé Francisco Marques, instrumentista, compositor e professor da rede pública e particular, que recentemente foi premiado pelo governo estadual como o melhor professor de Campo Maior, através de eleição em que os votantes foram os alunos.

Ao chegarmos, fui buscar as chaves da casa, que se encontravam com Antônio Pedro, irmão do Vicente Miranda, e que, em sua motocicleta, seria nosso guia, até o sítio. Ele tratou de me entregar um litro da legítima e pura cachaça serrana, por recomendação vicentina, para rebater o frio da Ibiapaba. Quis desobrigá-lo da missão de nos guiar, porquanto, em Teresina, o nobre Vicente me fizera desenhar um mapa, sob sua orientação, onde anotei os detalhes suficientes para não me embaraçar na localização da chácara. Mas Antônio Pedro foi firme e enfático:
De maneira nenhuma, tenho que orientá-los, se não o Vicente vai se chatear.

Fomos os primeiros a chegar, mas um pouco depois chegaram os demais companheiros, vindos de Parnaíba. Após nos instalarmos, com os trabalhos de armação de redes e colocação das bagagens nos aposentos adequados, fomos dar início aos trabalhos de pasto e de cautelosa libação. Ficamos num dos alpendres, a olhar a floresta e os cerros a se azularem na distância. Para nossa maior satisfação, quando foi por volta de 3 horas da tarde, caiu um repentina e generosa chuva. O clima serrano, agradável, temperado, tornou-se ainda mais frio. Parecia até uma carícia celestial a nos afagar a pele. De imediato formaram-se densas névoas, por entre o verde das árvores e nos cabeços dos montes. Então, pela primeira vez, ouvi o canto melodioso e alegre de uma sericora, a saudar a chuva que caía.

Quando foi às quatro horas da tarde o Canindé anunciou que ia dormir, pois iria às 18 horas iria com o Natim assistir a um jogo, pela televisão, na cidade, que fica a poucos quilômetros. Pensei que ele iria ser traído pelo sono, mas, quando foi precisamente no horário marcado, acordou e cobrou do Natim o cumprimento do trato. Este honrou a palavra, e os dois foram assistir ao futebol, porém retornaram antes do início do segundo tempo. A conversa e a música prosseguiram noite adentro. O Zé Francisco Marques estava deveras inspirado, e com certeza não perderia para o Turíbio Santos numa disputa entre violonistas consumados.

Quando paramos de perturbar o mestre com pedidos e mais pedidos para que ele tocasse determinada música, e ele pôde seguir o seu próprio repertório, por sinal de muito bom gosto, a sua performance solo transformou-se num verdadeiro espetáculo musical, com músicas que transitavam da velha guarda à velha jovem guarda, passando pela velha e boa bossa nova e pela tropicália, sem descurar de uma belas pepitas da MPB.

Obviamente, não teve vez a famigerada axé music, o horripilante funk e nem o enfadonho forró eletrônico, em que imperam as letras grosseiras, de evidente mau gosto. A música prosseguiu no silêncio e na solidão da chapada da Ibiapaba até o cansaço e o bom senso nos recomendarem o repouso e o sono. Dormi muito bem. Ainda que eu pudesse, não precisaria desligar o ar condicionado da fria madrugada serrana.


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