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José de Ribamar Freitas, o último Heleno - Por Elmar Carvalho
Fonte: Elmar Carvalho | Publicado em: 18/05/2012  
 

Na sessão de sábado da Academia Piauiense de Letras, houve várias proposições de votos de pesar, todas aprovadas por unanimidade. Assim, foram noticiados os falecimentos de Zilma Martins da Cunha, odontóloga, que deixou viúvo o correntino Benjamim Cunha Nogueira; José Airemoraes, sacerdote católico, tio do confrade Raimundo José Airemoraes; Almério de Castro Gomes, amarantino, doutor e mestre, professor e pesquisador da Faculdade de Saúde da Universidade de São Paulo; Francisco Bilas, piauiense de Campo Maior, mas que fez sua carreira de jornalista no Ceará, onde foi diretor-editor do Diário do Nordeste por 22 anos; Barros Pinho, poeta e contista, nascido em Teresina, fez sua carreira política e literária no estado do Ceará, tendo sido vereador, prefeito de Fortaleza, secretário estadual da Cultura e deputado estadual.

Foi nessa sessão que recebi a impactante notícia da morte de meu mestre José de Ribamar Freitas, através da palavra abalizada do desembargador Manfredi Mendes de Cerqueira, que lhe fez um verdadeiro panegírico, ao enaltecer a sua rica personalidade e ao lhe traçar um breve perfil biográfico, quando propôs o voto de pesar. Os demais votos de pesar foram apresentados respectivamente por Jesualdo Cavalcanti Barros, Manoel Paulo Nunes, Reginaldo Miranda da Silva e Zózimo Tavares (este fez duas proposições, referentes a Francisco Bilas e Barros Pinho). Houve vários apartes e pronunciamentos de solidariedade, em que as qualidades e méritos dos mortos foram enfatizados e louvados. Eu mesmo não pude deixar de fazer uso da palavra, para expressar a minha admiração por José de Ribamar Freitas, de quem tive a honra de ser amigo, pois várias vezes o visitei em seu apartamento , para desencadearmos longas conversas ou práticas, como, às vezes, o mestre as chamava, em seu português irreprochável, terso, castiço.

Nessa sessão, quase diria fúnebre, tal o avantajado número de votos de pesar, o confrade e jornalista Zózimo Tavares, em seu humor refinado e cáustico ao mesmo tempo, disse que desejaria registrar também uma tragédia. A tragédia a que ele se referiu era o fato de que as aulas da rede estadual do corrente ano ainda não tivessem começado, o que sem dúvida viria a comprometer a qualidade dessa prestação de serviço público, que já não é das melhores, com a reposição da carga horária feita a toque de caixa e de qualquer maneira.

Nas várias vezes em que visitei o apartamento do professor Freitas, deixava-me ficar a admirar a sua invejável biblioteca. Via os seus vários dicionários, sobre os mais diversos temas, incluindo significação, sinonímia, etimologia, flexões nominais e verbais, analogia e ideias afins, etc. Ali pontificavam os clássicos da literatura brasileira, portuguesa e mundial. Enfileiravam-se nas estantes as obras máximas do classicismo greco-romano, em que não poderiam faltar os herois e enredos mitológicos. Devo destacar as imortais obras das literaturas francesa e inglesa, com ênfase para as do romantismo. Alguns desses volumes são raras preciosidades, dignos de rigoroso bibliófilo.

Em várias ocasiões estimulei meu mestre a escrever as suas memórias, porquanto me era muito agradável ouvi-lo falar sobre certos episódios de sua longa e plena vida. Alguns tinham certo toque anedótico, em que se notava sutil ironia, outros eram revestidos de caráter edificante, contudo sem tom doutoral ou moralista, posto que ele era avesso às imposturas e farisaísmos. Embora ele não tenha rechaçado a sugestão, tendo mesmo me dito que faria algo nesse sentido, creio que não a realizou. Pelo menos nunca me revelou haver iniciado esse trabalho.

Sendo um erudito e um orador de amplos recursos, era também um consumado causeur. Enriquecia sua palestra com comparações, citações, exemplificações históricas e sadias anedotas. Na retórica, seguia as lições dos mestres clássicos, como Cícero, Demóstenes, Vieira e Rui Barbosa. Seus discursos eram bem definidos com relação ao introito, desenvolvimento e arremate, em que era engastada uma cintilante chave diamantina, de beleza incomparável. Sua gesticulação e voz ajustavam-se com perfeição às palavras, dando vida e fulgor ao conteúdo, sempre rico e denso, concebido invariavelmente em linguagem clássica, castiça, em que nada ficava a dever a Manuel Bernardes, padre Antônio Vieira e Dom Francisco Manuel de Melo, dos quais pode ter sido discípulo, em sua juventude, ao lhes haurir as lições, mas aos quais se ombreou, pelo estudo e esforço, através dos quai s também se tornou um Mestre.

Não é meu propósito esmiuçar aqui o seu curriculum vitae, declinar os cargos que exerceu, os concursos em que logrou aprovação, as obras que deu à estampa. Deixo esse mister aos dicionaristas e biógrafos. Todavia, algo devo dizer a esse respeito. Foi diretor de secretaria da Justiça Federal, durante largos anos, onde serviu com muito zelo e proficiência. Escreveu um trabalho sobre a história da Justiça Federal no Piauí, e outro sobre o rumoroso e dramático caso do assassinato do juiz federal Lucrécio Dantas Avelino, filho do também juiz federal Demóstenes Dantas Avelino. Publicou um notável livro de contos, concebidos na linha da tradição, com enredo bem delineado, e linha cronológica definida, com começo, meio e fim devidamente ordenados. Alguns desses textos tinham como pano de fundo episódios ou ambientação histórica.

Professor da Faculdade Federal de Direito do Piauí, passou a integrar o quadro magisterial da Universidade Federal do Piauí, com a criação desta, no início da década de 70. Foi chefe do Departamento de Ciências Jurídicas e diretor do Centro de Ciências Humanas e Letras dessa universidade. Tinha mestrado. Aprovado em concurso, foi nomeado procurador da Fazenda Nacional, mas declinou de tomar posse nesse cargo. Pertenceu ao Instituto dos Advogados do Piauí. Foi um dos fundadores da Academia Piauiense de Letras Jurídicas.

Escreveu ensaios e discursos sobre eminentes escritores, intelectuais, oradores e juristas, tais como padre Antônio Vieira, João Francisco Lisboa, Jacques Maritain, Balduíno Barbosa de Deus e o juiz federal Agnelo Nogueira Pereira da Silva. Nesses trabalhos, em seu vernáculo imaculado, à moda clássica, em estilo depurado, o mestre Ribamar Freitas não se deteve apenas em alinhavar dados biográficos. Essas obras traçam uma verdadeira radiografia da personalidade do homenageado, descrevendo-lhe o caráter, perquirindo-lhe as ideias e os ideais, ao tempo em que emitem percucientes comentários críticos sobre as obras do biografado. Para isso, o mestre lançava mão de sua invejável erudição, de sua cultura humanística e de seu notável conhecimento literário e de teoria literária. Para não dizerem que não falei de flores, falarei de música: Ribamar Freitas era ainda violinista e maestro.

Julgo de bom alvitre registrar um fato pitoresco, que narrei no meu discurso de posse na Academia Piauiense de Letras: “No primeiro dia de aula de sua disciplina, cheguei um pouco atrasado, exatamente no momento em que o mestre perguntava qual dos alunos sabia quem era Adamastor. A classe mergulhou em silêncio tumular, ante tão insólita pergunta. O silêncio só foi rompido quando respondi que era o gigante de Os Lusíadas. Recitei os versos em que Adamastor ameaçava de males piores do que a morte os bravos navegantes portugueses. O mestre ficou boquiaberto, e levemente contrafeito, porque eu quebrara o mote de sua peroração, com que procurava demonstrar que nos dias atuais já não se liam as grandes obras literárias, sobretudo as oriundas do classicismo”.

O mestre escreveu um longo trabalho sobre a minha poesia, denominado “Comentários sobre Rosa dos Ventos Gerais e excertos a patentear figuras e tropos que lhe exornam o texto”. É, na verdade, um ensaio sobre estilística e linguagem, em que, utilizando fragmentos de meus poemas, ministra lições sobre tropos e figuras de linguagem, de forma agradável, embora profunda. Os trechos que ele cuidadosamente selecionou exemplificam esses recursos retóricos, que bem podem ser utilizados na poesia, na prosa de ficção, na crônica e na oratória. Esse trabalho foi publicado na fortuna crítica da segunda edição de Rosa dos Ventos Gerais.

Quando lhe fui entregar esse livro, conversei um pouco com o mestre, em sua rica biblioteca. Mais uma vez vi como seus livros eram bem cuidados. Muitos ficavam envoltos por sacos plásticos, que lhes defendiam de traças e poeiras. Outros, ostentavam bela encadernação, com letras douradas, que ele lhes mandara confeccionar. Quando já começava a tomar a escada de seu duplex, o mestre me chamou:
Acompanhe-me. Venha ver onde vou colocar o seu livro.

Deixo que ele mesmo conte esse fato, que muito me comoveu: “Dadivou-me o poeta ELMAR CARVALHO a sua obra poética ROSA DOS VENTOS GERAIS, trabalho esmerado e digno de encômios, a qual, após ma haver entregue, eu depus (e disso então o fiz ciente, como testemunho do apreço que lhe voto) na estante de minha biblioteca, onde se enfileiram os livros dos poetas ilustres do Piauí, quais Martins Napoleão, Da Costa e Silva, Júlio Martins Vieira e outros”. Martins Napoleão afirmara ser o último heleno. Mas o último heleno foi, na verdade, José de Ribamar Freitas, latinista, helenista, fervoroso cultor do classicismo greco-romano.

Contudo, meses depois, em nova organização das obras, o meu livro foi posto em outro local. Estava na estante que ele dedicava aos livros de sua autoria ou que tinham trabalhos seus, como era o caso. Indaguei-lhe sobre o motivo da mudança. Não sei se ele notou algum laivo de tristeza em meu semblante. Sei que alguns meses depois, quando voltei a visitá-lo, o meu modesto livro, trajando uma verdadeira veste cardinalícia, na capa dura, vermelha (que ele lhe mandara fazer), com o título e a autoria lavrados em letras de ouro, já estava em outro lugar. Estava (imerecidamente) entre os grandes poetas de sua predileção. Sei que ali não estava por ser de Justiça, e disso tenho plena consciência. Estava apenas por causa de sua generosidade e amizade para comigo. Emocionado, choro, agora que não mais posso rever o Mestre e amigo. E com minhas lágrimas, amálgama de emoção e saudade, fecho este registro, feito em sua memória.


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