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Gonzagão "Bico de Aço" e outras histórias Por Elmar Carvalho
Fonte: Elmar Carvalho | Publicado em: 08/02/2013  
 

 

Na sexta-feira fui ao Itacor, para me consultar com o Dr. José Itamar Abreu Costa, seu presidente e emérito cardiologista. Quando retornei, para lhe entregar o resultado de dois exames, que ele havia inicialmente solicitado, fiquei a contemplar dois grandes quadros afixados na antessala. Um, continha a fotografia de uma bela paisagem, creio que europeia, na qual se via um lago, uma montanha e a floresta em seu derredor. O outro era a pintura de um Cristo, talvez no horto, a rezar fervorosamente, de mãos postas.
 
Suponho retratasse a sua agonia, às vésperas de sua paixão e morte, pois suas feições estavam contraídas, a expressar angústia e sofrimento, como se antecipassem o que ele padeceria nos episódios que se estenderiam do julgamento por Pilatos à crucificação no alto do Gólgota ou Calvário. Não era um retrato padrão, porquanto era um Jesus de barba e cabelos negros, e certamente as suas feições não eram as de um ariano (branco, louro e de olhos azuis).
 
Quando eu estava imerso nesses pensamentos, aguardando a minha vez de ser atendido, o médico e intelectual Itamar Abreu Costa adentrou a sala de espera, vindo do consultório. A sorrir, disse que o grande quadro da paisagem, que no momento eu olhava, era a fotografia de um lugar de sua terra natal, Alto Longá. Sem dúvida, seu torrão terá outras paisagens bonitas, como as nascentes do Longá, a vertente Campeira; mas aquele não era um panorama longaense, como depois ele confessou.
 
No momento em que fui por ele atendido, ao lhe entregar o meu exame de eletrocardiograma, disse-lhe que, se aqueles gráficos fossem uma pintura geométrica ou mesmo abstrata, dependendo da perspectiva do analista, poderiam ser vistos como figurando os vastos campos de Campo Maior. Alguns quadros pareciam um descampado, com esbeltas carnaubeiras ao longo da linha do horizonte; outros eram semelhantes aos tabuleiros, em que se erguem as corcovas arredondadas dos cupins; alguns outros me fizeram lembrar uma tábua, em que se viam pequenos buracos, feitos por pebas e tatus, pois os registros das batidas de meu coração apontavam para baixo da linha do horizonte, que se mantinha quase reta, quase sem inclinações, fossem para cima, fossem para baixo.
 
Acrescentei-lhe que, ao meu olhar de leigo, aquela sequência de quadros, doze ao todo, pareciam indicar que eu estava bem, que não havia acidentes e nem irregularidades no funcionamento de minha bomba cardíaca. Tudo parecia equilibrado, com as “carnaubeiras” e as “corcovas de cupins” do mesmo tamanho, guardando quase perfeita simetria. Itamar, após me explicar como era feito o exame, disse-me que eu estava certo, que no momento do exame o meu velho coração estava funcionando muito bem. Eu sabia que ele estava bem espiritualmente, mas não sabia que estivesse tão bem em seu mecanismo fisiológico.
 
Contudo, como eu já “desfruto” de hipertensão, achou recomendável eu fizesse um exame em esteira ergométrica e um ecocardiograma. Anteontem, lhe fui levar os laudos dessas perscrutações. Parabenizou-me por ambos os resultados. Admirou-se do laudo ergométrico, que estava muito bom para pessoa de minha idade. Pelo entusiasmo como o cardiologista Itamar Costa falou, senti-me o próprio Indiana Jones tupiniquim, e quase me senti o queniano Poltergeist, o fenomenal maratonista de São Silvestre.
 
O doutor Itamar já me havia contado, em consulta anterior, que o grande Luiz Gonzaga, o genial Rei do Baião, havia se hospedado na fazenda Pequizeiro, localizada à margem da estrada real, que ligava Sobral a Teresina, passando por Crateús, quando viera do Ceará para a capital piauiense, a serviço do Exército Brasileiro. A tropa viera de trem de Fortaleza até Sobral, e fizera o restante da viagem em lombos de animais. Nessa ocasião, Gonzaga, ainda garoto, executou algumas músicas num fole pé de bode, de apenas oito baixos, já um tanto escacholado. Essa fazenda pertencia a Laurindo de Castro, pai do Dr. Franklin de Castro Lima, dono da empresa Água Mineral Regina.
 
O avô de Itamar, Agustinho Marques da Costa, era o vaqueiro da fazenda Pequizeiro, e também tocou algumas músicas na acanhada sanfona de sua propriedade. Luiz Gonzaga, além de exímio sanfoneiro, era o cabo corneteiro da tropa, e ganhara o apelido de Bico de Aço, pelo modo forte como fazia vibrar sua corneta. Em lembrança desse fato e em homenagem ao velho Lua, Itamar mandou fazer um banner, em que aparece a empunhar uma grande sanfona prateada, em companhia do Gonzagão. A montagem fotográfica, que ele me mostrou, ficou muito bonita, contudo, não posso deixar de dizer que o esforçado Itamar, na qualidade de sanfoneiro, é um grande cardiologista.

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