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Revendo Pedro II - Por Elmar Carvalho
Fonte: Elmar Carvalho | Publicado em: 08/02/2013  
 

 

Sete anos atrás, quando eu era o titular da Comarca de Capitão de Campos, o irmão Francisco José Sousa, eminente grão mestre do Grande Oriente do Estado do Piauí, sob o argumento de que eu estava trabalhando relativamente perto de sua terra natal, Pedro II, colocou sua casa nessa cidade à minha disposição, para ali passar alguns dias. Quando o reencontrava, em algumas ocasiões, perguntava se a oferta ainda estava valendo, respondendo-me ele sempre afirmativamente.
 
Não querendo abusar de sua generosidade, somente agora resolvi lhe solicitar a casa, como um apoio logístico a um passeio que faria com alguns familiares, entre os quais minha mulher, meus pais, minha filha, duas irmãs e alguns sobrinhos. Ao todo, éramos doze pessoas. Prontamente, o nobre irmão Francisco José cedeu a casa, fornecendo-me um mapa com endereço e telefone de pessoas amigas. Recomendou-me não deixasse de visitar o Museu da Roça, cujo proprietário é o irmão maçom Mundote Galvão, pai do magistrado Olímpio José Passos Galvão, também membro da sublime Ordem.
 
Quando eu já chegava ao Posto da Polícia Rodoviária Federal em Piripiri, meu celular tocou, tendo sido atendido pela Fátima. Era o meu irmão Antônio José, nos avisando que ele e os demais membros de nossa comitiva familiar já se encontravam no Museu da Roça, onde nos aguardariam. Ele, meus pais, meus irmãos e meus sobrinhos chegaram a Pedro II na parte da manhã, e à tarde foram conhecer esse importante ponto cultural, que fica a poucos quilômetros da cidade.
 
Sem necessidade de ultrapassar a velocidade máxima permitida, cheguei ao local em aproximadamente meia hora. Logo notei que o museu era bem cuidado, com pequenas tilhas sinalizadas, arcos de ramos e flores e caramanchões. Existiam muitas pequenas placas, com frases educativas, de temáticas ecológicas, e outras, reflexivas, contendo sabedoria de vida. Quando cheguei até onde se encontrava o patriarca Mundote Galvão, já ele havia entretido uma longa conversa com meu pai, que tem a sua idade, ou seja, 87 anos.
 
Na prática que teve comigo e com meus familiares, disse que o segredo de sua boa saúde e longevidade é não pensar em doença, e em comer rapadura diariamente, seja escoteira, seja com comida, seja para adoçar suco ou café. Também disse não gostar de usar medicamentos, exceto, de forma muito moderada, os naturais, feitos com ervas e plantas. Após algum tempo, perguntou-me se eu desejava tomar uma cerveja. Respondi-lhe que sim. Ele mesmo colocou a bebida nos copos de meu irmão, de meu sobrinho e no meu.
 
Somente quando pedi para pagar a garrafa de cerveja (que, aliás, ele não me permitiu fazê-lo), é que soube que ele nada tomara. Indagado a respeito, respondeu que bebera apenas algumas poucas vezes em sua juventude, mas descobrira que bebida não lhe servia para nada, porquanto bebera para esquecer as suas paixões juvenis, mas o efeito foi que ficara mais apaixonado ainda. Como ele tem senso de humor, e falava com disfarçado sorriso, não sei ao certo se brincava ou se falava para valer.
 
Mundote Galvão, pelo que percebi de nossa conversa, e pelas informações que tenho sobre ele, é um bom cidadão, um homem de boa-vontade e um maçom dedicado e cheio de entusiasmo, e que soube desbastar, lavrando-a com afinco, a pedra bruta que existe em todos nós. Ao lhe indagar se fora ele o idealizador e criador do museu, disse que fora uma de suas filhas, Inês Passos Galvão, que muito se empenhava em mantê-lo e conservá-lo. Não sei se em sua resposta houve um excesso de modéstia, mas o certo é que se notava, pela arrumação e limpeza do lugar, que havia o zelo de uma mulher dedicada e detalhista.
 
Conheci a imperial cidade de Pedro II mais de 32 anos atrás, quando eu, além de jovem, ainda morava em Parnaíba. Nesse tempo, a Fátima, então minha namorada, fora tirar as férias de uma colega dos Correios. Após tomar alguns copos de cerveja com o amigo Reginaldo Costa, no povoado Morros da Mariana, hoje cidade de Ilha Grande, num impulso, já à boca da noite, convidei-o a irmos a Pedro II. A juventude é, muitas vezes, afoita e atrevida, e o Reginaldo imediatamente aceitou o convite temerário.
 
Seguimos para Parnaíba, com o objetivo de nos prepararmos para a viagem. Fomos em nossas motocicletas, naquela mesma noite. Dispenso-me de contar detalhes dessa longa e estafante viagem, que não aconselho ninguém a fazer à noite, em veículo de apenas duas rodas. Paramos em alguns pontos, para nos aliviarmos do cansaço. Chegamos numa fria madrugada. Nessa época, Pedro II era uma típica e ainda acanhada cidade interiorana, de poucos milhares de habitantes. Não havia um único estabelecimento comercial aberto.
 
Apenas o hospital da cidade mantinha a porta de entrada aberta, com o hall iluminado. Entramos. Não havia ninguém a quem pudéssemos pedir alguma informação ou auxílio. Ali ficamos até de manhã cedo, para fugirmos do frio, que nos fazia tiritar, recostados contra a parede, na tentativa de tirarmos um breve cochilo. Umas pessoas, acho que funcionários e enfermeiras, nos abordaram ao amanhecer, com certo receio, pois certamente nos classificaram como sendo “forasteiros”. Respondemos às perguntas que nos fizeram, apresentando as nossas explicações e justificativas, e nos identificando, de modo que tudo terminou a contento. A seguir, localizamos a pousada onde a Fátima se encontrava hospedada.
 
Retornando aos dias de hoje, devo dizer que as circunstâncias e o panorama foram muito diferentes. De imediato, notei que a urbe havia crescido bastante, com o surgimento de grandes casas comerciais, inclusive supermercados, lojas, restaurantes, postos de combustíveis, hotéis e outros estabelecimentos empresariais. Foram erguidos vários prédios de andares, além da construção de outras praças. A avenida formada pela BR é toda asfaltada, da entrada até a saída da cidade.
 
Ao conversarmos com a senhora, que tinha a guarda da chave da residência, em que ficamos bem acomodados, ela nos disse que a visão noturna do Mirante do Gritador era bonita, com a vista das luzes dos povoados ao longe. Como era época de lua cheia, resolvi seguir para o mirante nessa mesma noite, após fazermos a refeição e nos instalarmos. Contudo, o tempo se manteve nublado, e o nosso satélite não deu o ar de sua graça, de forma que não pude ver a paisagem noturna da serrania, dos vales e morros, exceto as luzes elétricas das casas, ao pé do despenhadeiro.
 
Dizem que o socavão produz eco, donde o nome Gritador. Entretanto, por mais que eu e meus acompanhantes gritássemos, não obtivemos retorno. Cheguei a pedir para que o “Mister Eco” nos respondesse, porém ele fez ouvido de mercador ao meu pedido. Acho que, por falta do plenilúnio, ele fora dormir mais cedo. Mas essa justificativa também não condiz com a realidade, pois no dia seguinte ele também não ecoou. Talvez não tenhamos direcionado a voz para o local adequado. Fiquei levemente frustado pela falta da lua cheia e do eco, que não se fizeram presentes ao belo Mirante do Gritador.
 
Na manhã seguinte, a ala feminina da comitiva foi fazer compra de produtos do rico artesanato local, sobretudo peças de tecelagem. Eu, meu pai, meu irmão, meu sobrinho e minha filha Elmara fomos conhecer o centro histórico de Pedro II, e tirar algumas fotografias. Admiramos seus belos casarões e as suas duas bonitas praças. Pude constatar que os moradores, descendentes de velhas estirpes pedrossegundenses, cuidam bem dos velhos solares avoengos, conscientes de que devem preservá-los independentemente de leis de tombamento.
 
A imperial cidade, por ocasião do centenário do status de vila, ergueu um monumento em homenagem ao imperador Dom Pedro II, que além de ser considerado sábio, foi poeta e mecenas, além de cultor da ciência. Dizia ele que, se não fosse monarca, gostaria de ser professor, o que revela a sua personalidade de amante das artes e da cultura. No pedestal do imponente busto, encontra-se breve cronologia dos principais fatos da história do município.
 
Alguns dos casarões ostentam placas, nas quais são nomeados os patriarcas das famílias que neles residem ou residiram. Assim, uma delas indicava o nome do coronel Domingos Mourão Filho, que residiu no Solar da Estrela Marrom, cuja biografia foi narrada pelo jornalista e escritor José Eduardo Pereira em memorial álbum; outra, referia o casarão haver pertencido à família Gomes Campelo, da qual faz parte o desembargador Tomaz Gomes Campelo, que sempre comparece aos importantes eventos culturais da cidade.
 
Encerramos o nosso périplo turístico no Mirante do Gritador, de onde se tem uma deslumbrante visão do abismo e dos morros adjacentes, além das casas e quintais, que se erguem no vale. Embora, como dito, o eco estivesse de folga ou de greve, o mesmo não aconteceu com o vento, que nos devolveu os objetos leves, que lançamos ao precipício.
 
Acredito que o despenhadeiro do Gritador seja um boqueirão dos ventos, que, ao baterem na fralda do morro, erguem-se em busca de saída para sua desenfreada e incansável correria, devolvendo esses objetos, como se eles fossem um bumerangue. Saquei um potente binóculo e trouxe para mais perto de mim a beleza da paisagem serrana, que se erguia ao longe, e a trouxe comigo, no embornal de minha memória, e no cartão de memória da máquina fotográfica.

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